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Negros Espaços de Afeto

Ao longo de nossas vidas, nos inserimos em diversos grupos que influenciam nossa forma de ser e estar, bem como nossa inclusão social. Grupos são entidades delimitadas com atividades propositivas capazes de gerar impactos a nível individual e coletivo, respondem a necessidades psicológicas de seus membros ao permitirem que estes experimentem relações de intimidade, identidade, desenvolvimento e afirmação pessoal. Além disso, fornecem subsídios que nutrem crenças sobre eles próprios consolidando espaços de pertencimento social.

Uma das primeiras ações escravocratas, ao chegarem com os escravizados no Brasil, foi separá-los de seu grupo linguístico e cultural para que os mesmos não pudessem se comunicar com desenvoltura, evitando tentativas de fuga e revoltas. Ser arrancado de sua terra natal, ver familiares e amigos sucumbirem à travessia, torturados, apartado dos seus, não eram apenas formas de tornarem os negros cativos, como também de criar condições difíceis para o exercício do afeto por parte das pessoas negras. Nos dias atuais, o sistema de opressão e as violências as quais são submetidas pessoas negras, muitas vezes, embotam nossa capacidade de amar.

Os Quilombos eram formados em locais de difícil acesso por negros fugitivos, que não mais aceitavam serem escravizados. Além de uma manifestação de resistência contra um tratamento opressivo, o Quilombo constituía uma comunidade diferente daquela criada pelos colonizadores. Quilombolas participavam de todas as etapas do trabalho, voltados a alimentação do grupo, fabricavam suas vestes e ferramentas, e também experimentavam relações de afeto.

Estarmos juntos e ocuparmos espaços é uma forma de resistência, um ato político que algumas vezes se converte também em espaços de afeto. Ainda é possível identificarmos os impactos da ausência de experiências de amor nas relações negras. Hoje em dia já se discute abertamente questões que são históricas, como a pouca valorização da estética negra, algo culturalmente aprendido, a solidão da mulher negra, a objetificação de homens e mulheres negros. Estar entre semelhantes, diante disto tudo, é saudável, e para quem desfruta destes espaços de afeto, há um maior sentimento de pertencimento, autoamor e formação de identidade.

A Segunda Preta, Coletivo Negras Autoras, Festival de Arte Negra, Feira Ébano, Grupo dos Dez (BH), ou Aparelha Luzia(SP) são exemplos desse tipo de espaço de resistência e troca de afeto, no campo das artes. Aqui em BH a cena negra tem sido levada à sério por gente bonita e competente, no teatro, dança e música. A mobilização para dar acesso às pessoas negras, principalmente crianças, à exibição do longa metragem Pantera Negra também é um exemplo. Estas iniciativas fisicamente fazem ocupar uma cena cultural importante e concentram um número expressivo de pessoas negras circulando. Estar em um lugar que sua estética é exaltada, reconhecida, propicia não apenas o desenvolvimento do auto amor, mas do amor aos seus pares. E este bem-estar reflete positivamente na saúde mental como um todo e no enfrentamento das nossas lutas diárias.

Laila Carolina Resende

Denilson Tourinho - Espetáculo Madame Satã

Foto: Fábio Patrocínio

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