O NEGRO E O BANZO

A palavra banzo tem origem africana e equivale a “pensar, meditar”. Quando trazida ao Brasil, banzo passou a designar um estado de tristeza, melancolia profunda que acometiam as pessoas aqui escravizadas. Relatos médicos dão conta que, estando essas pessoas privadas de sua liberdade e distante de sua pátria, despertavam nos mesmos um estado de espirito nostálgico, saudosista. Assim sendo, o banzo recebia atribuições românticas que por sua vez, encobriam e minimizavam uma série de sofrimentos mentais que afetavam negros e negras. Importante ressaltar que os mesmo relatos médicos indicam que muitos negros e negras cometiam suicídio em estado de banzo chegando este número a ser três vezes mais que o de pessoas brancas. Alguns de maneira ativa, como enforcamento, afogamento, uso de armas. Outros de maneira passiva, perdiam o gosto pela vida, paravam de se alimentar e morriam de inanição.

No decorrer dos séculos XVIII e XIX, a nostalgia tornou se objeto de pesquisa na área médica devido a elevada ocorrência dessa enfermidade nas nações europeias. Joaquim Manoel de Macedo, escreve sua monografia sobre nostalgia, apresentada a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro em 1944, que o banzo é uma moléstia mental causada pela saudade da pátria, tendo com sede o cérebro dos negros e negras. Identificado com os senhores, o doutor Macedo não demonstra simpatia alguma pelos escravizados, mas acreditava que a nostalgia dos negros merecia ser estudada pois representava potencial ameaça a economia. Outros poucos estudiosos da época pesquisaram a questão do banzo, porém o mesmo ficou esquecido até 1930 /1940 quando o denominado estudos Afro Brasileiro suscitou o debate, tratando como uma doença real, mas sem muita problematização.

A história dos afrodescendentes determina não apenas nosso lugar social como nosso lugar simbólico. Do negro foi retirada a humanidade e com ela a possibilidade do sofrimento e do adoecimento mental. De acordo com o IBGE a maior parte da população brasileira pobre é negra. Além da exclusão gerada pela desigualdade social, há o racismo que potencializa o sofrimento mental e não está diretamente associado a classe econômica. A construção social dos sujeitos negros está impregnada pelo racismo e suas variáveis (machismo, sexismo, misoginia) manifestado através do preconceitos, estereótipos e discriminação, gerador de violências físicas e simbólicas, e que por sua vez, acarretam em sofrimento mental.

Contudo, não existe no Brasil dados concretos acerca da saúde mental da população negra. Não há trabalhos de pesquisa significativos que relacionem a cor/raça a saúde mental, apenas alguns registros informais. O acesso a profissionais da área também se mantem restrito a um grupo privilegiados de pessoas, do qual a população negra, em sua maioria, não faz parte. Existe hoje uma quantidade significativa de pessoas negras em sofrimento mental sem receber nenhum tipo de acolhimento, os cuidados com a saúde mental não deveriam ser privilégio para poucos.

A saúde mental da população negra é ignorada hoje assim como foi a dos escravizados que sofreram banzo há 500 anos atrás.

Laila Carolina Resende

Imagem -http://www.revistapersona.com.ar/Persona73/73Banz5.jpg

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